Aluísio Azevedo pela crítica contemporânea: “Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos!”

Aluísio Azevedo pela crítica contemporânea: “Quem me comeu a carne   tem de roer-me os ossos!”

Todos os autores inspirados pelo naturalismo, tanto no século XIX quanto nas primeiras décadas do século XX, sofreram um intenso processo de simplificação interpretativa – um duplo empobrecimento de suas obras e
dos alicerces teóricos que as sustentaram.

Com Aluísio Azevedo, não foi diferente. O autor que, em vida, fora celebrado como um dos principais artífices de uma literatura moderna e socialmente engajada, passou a ser lido, ao longo do tempo, por meio de um filtro redutor que privilegiou a leitura moralista, o rótulo de imitador e a canonização isolada de O cortiço como obra paradigmática.

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A produção do livro Aluísio Azevedo pela crítica contemporânea nasceu da necessidade de enfrentar esse processo crítico de erosão. Nosso objetivo não era apenas reavaliar a fortuna crítica do autor, mas também compreender o modo como sua recepção exemplifica a trajetória do naturalismo brasileiro: um movimento frequentemente julgado pela ótica do “déficit” – de originalidade, de rigor científico, de decoro, de arte –, mas cuja vitalidade literária e editorial foi decisiva para a formação de um público leitor e para a consolidação do campo literário no país.

O Aluísio Azevedo que emergiu desse projeto é, retomando a imagem da crônica de Olavo Bilac, um “pai de muitos filhos”: múltiplo, heterogêneo, contraditório, dotado de uma variedade de registros e procedimentos que
ultrapassam a divisão tradicional entre “romances de tese” e “romances de encomenda”.

Sua obra capta, com rara acuidade, a formação de uma cultura moderna atravessada pela imprensa, pela ciência e pelas novas formas de consumo simbólico – aquilo que, mais tarde, se chamaria de indústria cultural. Longe de se limitar ao determinismo biológico do naturalismo canônico, Aluísio
mostra-se capaz de articular o discurso científico com as transformações culturais e intelectuais de seu tempo: o avanço da sociologia e da psicologia, o positivismo médico, a consolidação das ciências políticas e econômicas, o surgimento da comunicação de massa.

Organizado por Cláudia Barbieri, Haroldo Ceravolo Sereza e Leonardo Mendes, este livro recoloca Aluísio Azevedo e no naturalismo no debate sobre a construção da literatura brasileira, mostrando que temos um legado expressivo quer precisa ser revisto e relido, não só pelos brasileiros.

Esta edição traz dois textos inéditos no Brasil: uma crítica argentina à tradução de O mulato para o espanhol e uma texto do próprio Aluísio, que revela ter se inspirado na história do poeta Gonçalves Dias para compor a personagem à obra publicada pela primeira vez em 1881 e considerada fundadora no naturalismo no Brasil.

Sumário
Sobre a Coleção Crítica Contemporânea – 07
Andréa Sirihal Werkema e Rafael Fava Belúzio

Aluísio Azevedo para além de O cortiço – 09
Claudia Barbieri, Haroldo Ceravolo Sereza e Leonardo Mendes

Um folhetim, quantos romances? O Mistério da Tijuca e os seus desdobramentos narrativos – 33
Claudia Barbieri

Mattos, Malta ou Matta? Narrativa policial “ao correr da pena” – 75
Susana Neves Tavares Bastos de Pinho Silva

“Cortinas de veludo negro”: traços góticos em Pegadas (1898), de Aluísio Azevedo – 109
Marina Sena

Demônios em quadrinhos: as adaptações de Aluísio Azevedo para a arte sequencial e uma análise do trabalho de Eloar Guazzelli – 135
Santhyago Camello

O homem como obra capital de Aluísio Azevedo – 161
Leonardo Mendes

Aluísio Azevedo escreve pornografia: os casos de O homem (1887) e Livro de uma sogra (1895) – 197
Thales Sant’Ana Ferreira Mendes

O direito feminino ao gozo nos romances de Aluísio Azevedo e os manuais de aconselhamento sexual e matrimonial portugueses do século XIX – 235
Marina Pozes Pereira Santos


Duas faces da mesma moeda: o sexo e o sonho na obra de Aluísio Azevedo – 261
Angela Maria Dias

“Que loucura é essa, neném?!”: Aluísio Azevedo, Aurélio de Figueiredo e Raul Pompeia numa edição ilustrada de Casa de pensão – 281
Gilberto Araújo

Aluísio Azevedo promotor de Casa de pensão – 311
Cleyciara dos S. Garcia Camello

O cortiço e o petisco: romance e o teatro – 341
Orna Levin

Personagens trabalhadoras em O cortiço de Aluísio Azevedo: uma análise de tradição marxista – 365
Angela Maria Rubel Fanini

O coruja: entre o símbolo e a história – 383
César Braga-Pinto

Revolução burguesa e anti-imperialismo em O Japão de Aluísio Azevedo
Haroldo Ceravolo Sereza – 419

Anexos:
1) Aluísio Azevedo e Pérez Galdós – 441
Gustavo Martínez Zulvíria

2) Carta a Gustavo Martínez Zulvíria – 449
Aluísio Azevedo

Sobre os autores – 453

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